"Trem cobra mais caro do que caminhão", afirma produtor...
A situação enfrentada pelos produtores de soja e milho na principal região de grãos do Brasil expõe a necessidade de ampliação da malha ferroviária, ao mesmo tempo que indica que mudanças no modelo de concessão do setor poderiam beneficiar o escoamento produção agrícola. Nesta fase da safra de inverno, o Mato Grosso vive seu pico de escoamento. As limitações logísticas colocam os produtores em uma situação "preocupante", diz o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Mato Grosso (Aprosoja) e do Movimento Pró-Logística, Carlos Fávaro: a ferrovia, meio de transporte que historicamente tem preço bem inferior àquele cobrado nas estradas, passou a ter, em determinadas situações, um frete mais alto que o dos caminhões.
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No Mato Grosso, a única opção ferroviária de acesso aos portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR) se dá pela Ferronorte, malha controlada pela América Latina Logística (ALL). A empresa nega a afirmação de que cobra preço de frete acima do rodoviário. Caso o produtor não queira escoar sua safra pela ferrovia, os únicos caminhos que tem são a BR-163, que corta o Centro-Oeste até chegar a Santarém (PA), onde é possível acessar o rio Amazonas, e a BR-364, que avança até Porto Velho (RO), chegando ao rio Madeira.
Essa situação faz com que, praticamente, quase toda produção da região envolva a intermediação de uma trading. Grandes companhias, como Bunge e Cargill, compram a colheita dos fazendeiros e, por meio de um contrato já firmado com a ALL, transportam a produção até os portos do país, onde elas também detêm terminais de armazenamento. A crítica dos produtores não poupa o modelo de atuação dessas tradings.
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Os dados do Instituto Mato Grossense de Economia Agropecuária apontam que, entre 2003 e 2011, o preço do frete rodoviário cobrado para levar a safra do Mato Grosso até o porto de Santos mais que dobrou, indo de US$ 62,3 para US$ 130 por tonelada. Hoje estima-se que, para cada mil km, o frete das estradas oscile entre US$ 40 e US$ 55. "Como a ferrovia sabe das limitações dos caminhões, ela pratica um preço alto também", diz o presidente da Aprosoja. "Normalmente, esse frete chega a 95% do das rodovias. Se formos procurá-los diretamente, sem a participação das tradings, pode chegar a 105% do preço das estradas."
Os produtores defendem as ferrovias como a melhor opção do transporte, mas cobram mudanças no acesso a elas. "Estamos falando do melhor caminho para o escoamento, mas o problema é o modelo, a forma que essa estrutura é oferecida", comenta Fávaro.O Valor procurou as tradings Bunge e Cargill para comentar as afirmações sobre a falta de transparência na cobrança de frete. A Bunge enviou nota informando apenas que, "considerando questões globais e de mercado, além da forte demanda atual por grãos, a Bunge avalia alguns fatores na negociação logística, tais como: projeções com os menores custos logísticos possíveis, os custos mais atrativos aos produtores e o índice de competitividade de cada modal". A Cargill não retornou ao pedido de entrevista.
Segundo dados do setor agronegócio, o segmento perde cerca de US$ 4 bilhões por ano por conta da ineficiência da infraestrutura e logística nacionais.
Fonte: Valor
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