Civilização em movimento


A logística do terceiro milênio ainda é movida por tecnologias antigas, muitas delas nocivas ao próprio homem. Talvez em um futuro não tão distante, achemos engraçado o fato de um dia termos utilizado combustíveis fósseis e sistemas de transporte tão antiquados. O transporte público de qualidade é peça-chave no processo de evolução desse quadro, mas é um esforço que exige mais empenho do poder público e também da população, cuja consciência muitas vezes se expressa apenas na teoria...
Para que as colmeias humanas funcionem, é necessário ter fluência no deslocamento coletivo, e disso ninguém tem dúvida. Construir bons caminhos para que horas preciosas de uma vida tão curta não se esvaiam de forma inútil, como nas longas e pacienciosas esperas em congestionamentos. Prejuízos para a economia (os estudos apontam algo entre R$ 4 bilhões e R$ 35 bilhões por ano só no Brasil) e para o bem-estar, aí incluindo a saúde mental, física e o tempo perdido que poderia ser utilizado para algo produtivo, lazer ou descanso.
Os problemas de mobilidade urbana desafiam a criatividade e a competência dos gestores públicos, em especial nas grandes aglomerações urbanas. Mesmo as metrópoles consagradas pela organização e eficiência não conseguem escapar dos congestionamentos. Paris, por exemplo, que tem um dos melhores sistemas de metrô do mundo, com mais de 200 km de linhas, tem seus dias de trânsito congestionado.
A cultura do automóvel incha as cidades com imensas frotas cumulativas, que a cada ano recebem milhares de novos veículos sem, no entanto, descartar os antigos. A progressão aritmética assusta. No Brasil, a frota cresceu quase 40% na última década e, segundo o IBGE, possui cerca de 36 milhões de veículos em circulação, entre motos, carros, caminhões e ônibus. Haja espaço nas vias de transporte e nas vias respiratórias, que são invadidas pelos poluentes lançados pelos escapamentos.
O transporte público de qualidade é a solução para muitos desses males. As alternativas não são poucas: trens metropolitanos de superfície, VLT, metrô, monotrilhos, sistemas BRT (Bus Rapid Transit), ciclovias e ciclofaixas, além de corredores de ônibus movidos por fontes de energia limpa e não poluente, são apenas alguns exemplos de eficiência com baixo impacto ambiental. No entanto, todas as tecnologias postas dependem igualmente da conscientização de que o transporte individual motorizado se tornou inviável porque, além de trazer custos elevados, tanto para o Estado quanto para o indivíduo, ainda atrapalha, quando utilizado de forma dispendiosa e massiva, qualquer bom projeto urbanístico.
Moscou possui uma das maiores redes de metrô do planeta, com 300 km de linhas, transportando cerca de 9 milhões de pessoas todos os dias. Ainda assim, a capital russa não é capaz de solucionar tanto transtorno como a combinação de caos, buzinas, poluição sonora e do ar, prejuízos financeiros e muito estresse.
Transporte público de qualidade
Um bom exemplo de planejamento somado à consciência da população está em Bogotá – o TransMilenio, no qual 69% das pessoas da cidade se locomovem usando o transporte público, e o sistema funciona sob uma lógica focada no coletivo, de integração entre ônibus articulados, biarticulados, comuns e micro, vans e estações com espaços para bicicletas, visando rapidez no deslocamento dos habitantes. São quase 1.200 ônibus, 114 estações em operação e média de 185 mil passageiros em horários de pico, segundo informações oficiais do governo colombiano. Os resultados de uma política integrada de transporte público de qualidade, refletidos em pesquisas de satisfação dos usuários, mostram uma situação bastante convincentes sobre o desempenho desse modelo.
Beijing, capital chinesa, onde os números da infraestrutura são superlativos, também não escapa de congestionamentos por excesso de carros nas ruas. Segundo informações de um relatório técnico elaborado pela União Internacional dos Transportes Públicos (UITP), obtido com exclusividade pela Revista Novo Ambiente, mais de mil veículos novos são registrados por dia na cidade, desde 2002, aumentando drasticamente os níveis de poluição do ar e ameaçando a saúde pública. Por outro lado, os modais de transporte utilizados pelos mais de 17 milhões de habitantes de Beijing são, além dos carros de passageiros (32,6%) e do transporte público (34,5%), as bicicletas, que representam 23% das formas de locomoção, o que traz benefícios para a saúde pública e do planeta, poupado da extração de recursos naturais para a produção de combustíveis.
O modelo de Bogotá é inspirado no sistema de Curitiba, considerada a maior referência mundial em transporte público de qualidade com a utilização de ônibus. Porém, ambos os sistemas só tiveram sucesso porque contaram com ampla adesão da população. Embora tenha se apresentado uma ótima opção em Bogotá, nem sempre é vantajoso em outras realidades.
Corredores de ônibus podem, aparentemente, exigir investimentos menores do que a implantação de uma linha de metrô – 1 km custa em torno de US$ 150 milhões –, mas os cálculos devem levar em conta também a durabilidade do material rodante, os impactos ambientais (e o custo da remediação dos efeitos desses impactos), como a emissão descontrolada de poluentes no ar, a eficiência (pontualidade) e a segurança. E, nesses quesitos, o metrô ganha sempre.
Relatórios elaborados pela área financeira da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), por exemplo, apontam uma economia, em 2009, de R$ 3,6 bilhões de retorno social com a operação de seu sistema. Neste retorno social, incluem-se benefícios como ganho de tempo, redução da poluição, menor desgaste das ruas e avenidas da cidade, redução do consumo de combustíveis e até melhorias na saúde pública.
Um sistema de transporte público de qualidade deve estar acima de modismos, intenções políticas ou questões meramente financeiras. Deve buscar em sua origem a razão de ser: garantir mobilidade aos cidadãos com segurança e conforto, mostrar-se verdadeira alternativa ao carro e estar em sintonia com as questões ambientais de um mundo cada vez mais urbano.

Fonte: Revista Novo Ambiente

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